Já os nossos corpos mergulharam juntos por entre esta selva de luz roubada, em movimentos perfeitos, em voos alados, numa dança sem fim no centro de um palco sem público. Deixar correr agora cada gota na janela baça... Que desperdicio!

quinta-feira, maio 19, 2016

Fertilidade.

Cheira a terra molhada e fértil
No teu beijo de terra batida.
Cheira a mosto de vinho abençoado
Nas planícies-dos-teus-ombros-ao-teu-umbigo.

terça-feira, abril 26, 2016

Para sempre.

Veloz, encho o meu peito de ar para te poder guardar dentro de mim. Os meus dedos percorrem-te, devagar, quase em câmera lenta, para decorarem cada poro da tua pele vertiginosa num movimento leve e sincronizado. Os meus dedos [sedentos] roçam os teus na eminência de um abraço, de um bailado sem fim entre os meus lábios e os teus num dueto tão perfeito que parece imaginado.
E não expiro. Amarro-te contra o meu peito. Abarco-te o corpo e o mundo e o redil onde escondeste os teus sonhos com estes braços vazios para nunca mais te largar.
Não te expiro. Não te perco.
Devagarinho, solto o ar.
Controlado, movimento os meus lábios contra os teus e faço-te meu de uma só vez. Para sempre.

terça-feira, outubro 06, 2015

Congelo

Lenta e ligeiramente o meu corpo começou a congelar. Não entendi onde começou: se foi nos pés que se tornaram chumbo ou na ponta dos dedos das mãos que se seguravam a elas próprias, só sei que o frio começou a entrar. De fora para dentro. Achei que seria normal, que o gelo seria uma reação natural do descalabro que se passava dentro do que já tinha sido e que n\ao voltaria a ser nunca mais. Achei que era assim mesmo, que gelaria até derreter novamente. Mas não. Só congelei.
Os meus pés deixaram de sentir a terra debaixo deles enquanto caminho pesadamente pelos nossos caminhos d'outrora e os meus olhos pararam de avaliar a distância infinita entre estrelas de quem ninguém quer saber ao mesmo tempo que os meu peito deixou de respirar o mesmo ar. Sim, não é claramente o mesmo ar que me preenche os pulmões em cada ciclo viciado, não pode ser! Antes... enchia. Agora esvazia!
No meus dedos não sinto mais calor ou pele ou vertigem ou arrepio ou amor ou

quarta-feira, setembro 16, 2015

Dancei para ti quando os teus braços eram meus.

Finjo que o teu corpo me pertence
E danço com os teus braços cor de mel. 

Não me movo graciosamente 
como imaginava que te movesses: 
cada perna é um tronco 
e cada passo um desassossego.

Avanço a dedilhar o tempo 
e os cabelos cor-de-vazio
com as tuas mão pesadas
de nada a transbordar.

Finjo que o teu corpo me pertence
E abraço-me de novo para sentir
O meu corpo nos teus braços
(Que são os meus braços 
A abraçar-me a mim.)

Não me sinto.
Não te sentes.
E eu já não sou teu.

Finjo que o teu corpo é teu
(como se de outra forma pudesse ser)
E danço sem os teus braços cor de mel.
(Para sempre.)

domingo, dezembro 28, 2014

Talvez tenhas mesmo decidido bater o pé no chão e ficar
Enquanto eu corro desacelaradamente para longe do abismo que nos separa
Sem saber como voltar atrás.

Não há música nem luz.
Mas há a promessa [vã?]
De um amor irrealizado.

domingo, novembro 30, 2014

Comigo o tempo corre mais lento que o normal, eu sei. Sei que cada segundo demora o tempo que o teu cérebro demora a descodificar o cheiro desumano da minha pele; o tempo médio que os teus neurónios demoram a explodir entre eles numa sinergia orgânica de um orgasmo elétrico que te faz salivar, devagar mas abundantemente, para dentro de mim.

Comigo o tempo não tem lugar: é inconstante como se os fotões decidicem  tomar o caminho mais longo a percorrer a curta distância entre a minha boca (entreaberta) e os teus olhos pejados de outono só para poderem apreciar o caminho um pouco melhor, como se soubessem que o tempo (inexorável) não se repete nem se copia para nunca permitir que tudo volte ao que já foi. Movem-se à velocidade do bater das tuas pestanas, percebi hoje... E percebo-os tão bem!...

Comigo o tempo passa mais devagar porque o teu braço teima em não me abraçar quando o meu corpo pede por ti a meio da noite e a distância que separa os teus poros dos meus é a do suspiro que exalo quando te beijo tão devagar quanto os meus músculos me deixam sem me deixar estático em ti.

O tempo... O tempo é o vazio preenchido dentro de mim quando decides permitir-me dentro de ti, os segundos largados nos teus lábios esfomeados de outra coisa qualquer que eu ainda não desvendei e que trazes embrulhada dentro do teu peito sedento de uma qualquer outra coisa que não eu.

O tempo é a distância infinita entre mim e o teu coração escondido de mim, entre o teu peito e o meu beijo,  entre os teus olhos e o meu corpo, entre as minhas mãos e a tua pele... Ai, são os segundos dentro dos minutos e horas de demoro a tentar, só tentar, tirar-te do céu da minha cabeça! E não consigo...

Sim, comigo o tempo corre mais devagar que o normal, como se eu quase pudesse pará-lo para não o deixar escapar, como se o quisesse tatuar na alma para não escapar mais; como se já soubesse que não vou voltar.

segunda-feira, novembro 10, 2014

Cor-das-folhas-prestes-a-cair

Afaguei-te o cabelo cor-das-folhas-prestes-a-cair e, sem me deter, beijei-te a vida inteira como se me afogasse em ti.